É engraçado parar para pensar na vida. Bem, talvez “engraçado” não seja
o termo mais adequado, mas foi o melhor que encontrei. Não quero entrar no
mérito de nenhuma teoria acerca do assunto, mas parece que realmente nós somos
meros atores nesse palco estranho.
Eis que um dia comecei a trabalhar no meu primeiro emprego, verde de
tudo (o contrário de madura, experiente, eu não estava vestida de verde, vejam
bem), ansiosa, com um pouco de medo, confesso. A advocacia pressupõe
responsabilidade, atenção, diligência e eu caí na área trabalhista.
Meu coordenador, mais novo que eu, era exigente e, logo percebi, mais do
que competente. E lá fui eu, recém formada, com a minha recém conquistada
carteira da Ordem.
O direito trabalhista era o que eu mais sabia na teoria. Mas na
prática... o ritmo alucinante da advocacia de massa me deixou um pouco tonta e
eu pensei “pronto, estou vivendo para o trabalho”.
E eu trabalhava. Sonhava com o trabalho. Fui buscar conselhos, achei que não
seria capaz de continuar ali, mesmo tendo formado em uma faculdade conceituada
e ter passado bem na Ordem.
Com a minha redação tudo certo, sempre me dei bem com ela. O problema
era acertá-la com o direito material e saber aplicar no processual.
Então uma vaga na área cível apareceu. Era a minha chance. Corri e pedi
para a coordenadora de lá que me trocasse de setor. Era um grito de me tira daqui! Se eu odiei o direito
trabalhista? De jeito nenhum. Faltava era confiança. Confiança em mim,
confiança na minha capacidade.
A vaga me foi negada, porque o coordenador daqui e a coordenadora de lá
viram em mim o que eu mesma não consegui enxergar. Eu era capaz sim.
E o tempo foi passando. Três meses, quatro... sete. E eu aprendia cada
vez mais. Minhas petições melhoraram. A medida que recebia o “ok” para fazer o
protocolo e enviar as peças para a análise do juiz, mais segura ficava para
escrever do meu jeito, desenvolver as minhas teorias seguindo as linhas que me
eram dadas. E a cada parabéns eu exultava.
Minha rotina se acomodou, e eu não mais achava ruim sair para trabalhar.
Eu gostava. Não mais vivia só para o trabalho. As coisas se ajeitam.
Claro que nem tudo eram flores, e eu errava. Errava, reconhecia, pedia
desculpas, sofria as consequências e continuava.
E então, depois de sete meses, depois que achava que enfim estava
começando a encontrar o meu lugar, o coordenador me chama para conversar.
Depois de assistir às idas e vindas de várias pessoas pelo escritório nesse
tempo, meu primeiro pensamento foi o de que seria demitida. Meu coração
acelerou, e lá fui eu, de cabeça erguida e com um sorriso no rosto. O sorriso é
importante. Sempre.
Mas eu não fui mandada embora. É que havia chegada a hora da minha
transferência para o direito civil, aquela que eu tanto almejei.... mas que
agora nem enchia mais os meus olhos. E tanta coisa passou pela minha cabeça. O
pedido para ficar ficou preso na minha garganta. Eu teria que passar por todo o
processo de novo, aprender uma matéria nova, me adequar ao sistema do novo
coordenador... Desespero! Fora que eu tinha aprendido a “amar” o direito
trabalhista, um amor construído arduamente na convivência do dia a dia.
Mas uma vozinha lá no fundo me disse “calma”. Recusar a oportunidade seria burrice. Ampliar o conhecimento é maravilhoso e necessário.
Mas uma vozinha lá no fundo me disse “calma”. Recusar a oportunidade seria burrice. Ampliar o conhecimento é maravilhoso e necessário.
E cá estou eu. Novas pessoas, novo ambiente, nova matéria, começando do
zero de novo. Mas dessa vez será diferente. Dessa vez eu sei que tenho que
esperar. Que o direito civil seja bem vindo. Se eu gostei do trabalhista,
também vou gostar dele. Um novo trabalho, um novo “amor”, uma nova época.
E assim é a vida. Num dia, tudo pode mudar. E a gente não tem escolha,
porque não tem como nadar contra a maré. E eu só vou pensar na última frase que
o meu antigo coordenador me disse, depois de um trabalho que eu tentei fazer da
melhor forma possível: “as portas estão abertas para você”.


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